sexta-feira, 19 de maio de 2006

EU ODEIO A QUESTÃO SOCIAL!

Eu odeio a Questão Social porque ela me lembra, todo o dia, que, para trabalhar com aquela mãe cujo filho se droga, eu tenho que entender como funciona a sociedade capitalista e os processos sociais que emergem na vida dos sujeitos.

Eu odeio a Questão Social porque, ao falar na dificuldade de se conseguir um emprego, ela me lembra das forças em tensão entre o capital e o trabalho e da discussão permanente em torno da flexibilização das leis trabalhistas para priorizar, segundo os representantes do capital, mais emprego!

Eu odeio a Questão Social porque ela me lembra que a corrupção é seu fruto mais dileto, porque ela explicita todos os dias que, para manter os privilégios de poucos, a lei do mercado se institui nas relações sociais e vicia as instituições.

Eu odeio a Questão Social porque ela está presente na voz do locutor de rádio quando ele diz que, em São Paulo (2006), na situação de crise que ora esta cidade vive, “a polícia só matou 101 suspeitos”. Mas quem são estes suspeitos?! Coibir a violência, por esta lógica, é instituir a barbárie...

Eu odeio a Questão Social porque ela me lembra que os excluídos de todos os direitos continuam sem direitos e contando com atendimentos paliativos e setorizados.

Eu odeio a Questão Social porque ela denuncia que a educação passou a ser mercadoria e não mais um direito, não mais um espaço de construção do conhecimento. Os alunos são clientes e os professores, meros vendedores.

Eu odeio a Questão Social porque como Assistente Social ela me ensinou que a violação de direitos é um produto da relação capital e trabalho.

E, finalmente, eu odeio a Questão Social porque, ao me apropriar dela definitivamente, me aproprio de minha consciência...

Maria da Graça Maurer Gomes Türck

Um comentário:

Ana Cristina P. Castro disse...

Simplesmente irreverente. Assim defino o artigo da Maria da Graça em "eu odeio a questão Social". O ódio da qual a autora se refere fica subtendido "eu amo" aqueles que tem coragem de enfrentar o preconceito e aceitar as diversidades de uma sociedade e que por isso não se calam diante do "poder institucional" e denunciam a falta de ética, respeito e comprometimento com as verdadeiras necessidades de uma sociedade cujos direitos básicos, muitas vezes,são violados.
Por isso, concordo com a autora e afirmo: apropriar-se realmente de sua consciência e avaliar a situação social caótica como produto de nossas próprias atitudes egoístas é,sem dúvida, uma tarefa para corajosos. Parabéns Maria da Graça