Após uma semana intensiva de Curso de Perícia Social (09 a 13/07/2007), ministrado para trinta e uma assistentes sociais, oriundas de diversos espaços institucionais, em São Luís do Maranhão, o que ficou?
Além da hospitalidade, da cidade linda, dos amigos, ficou a certeza de que existe uma tribo de sujeitos, independente da profissão que escolheram, movida pela esperança da mudança, na busca pela garantia de direitos.
Na Academia de Polícia, onde ocorreu o curso, patrocinado pela Secretaria de Estado da Segurança Cidadã, encontramos gestores interessados em trazer para o contexto institucional da Polícia um novo olhar.
Foi um momento ímpar e histórico, em que as assistentes sociais tiveram a oportunidade de conviver com profissionais que têm como objetivo coibir a transgressão.
E, também, foi possível aprender que trabalhar na contradição é também compor com as diferenças, sem se desvincular do Projeto Ético-Político da profissão.
O produto do curso transcendeu a apropriação de conhecimentos. Foi vivência, troca de conhecimentos e de aprendizagem.
Foi surpreendente pelo desejo de aprendizagem e pela sinergia do grupo, não só de assistentes sociais, mas de todos os integrantes da Academia de Polícia e do Centro de Perícia do Complexo de Atendimento à Criança e Adolescente, que, nessa semana do curso, interagiram intensamente.
São nesses momentos de compartilhamento de conhecimento e de relações que a esperança para a garantia de direitos se consolida.
Obrigado, amigos e parceiros de São Luís do Maranhão!
quarta-feira, 25 de julho de 2007
sexta-feira, 6 de julho de 2007
Curso de Perícia Social
Entre os dias 9 e 13 de julho a Assistente Social e Professora Maria da Graça Türck estará realizando Curso de Perícia Social, patrocinado pela Secretaria de Estado da Segurança Cidadã, Academia Integrada de Segurança Cidadã (AISC), em São Luís no Maranhão.
segunda-feira, 25 de junho de 2007
O ASSISTENTE SOCIAL E A LUTA PELA GARANTIA DE DIREITOS
Garantir direitos para os outros implica, primeiramente, garantir os direitos para os assistentes sociais em seus espaços de trabalho.
Quem os garante?
Como podemos em um coletivo organizado enfrentar os desmandos, a falta de respeito e a prepotência que alguns profissionais de outras categorias profissionais nos confrontam no nosso dia-a-dia profissional?
Por que sempre tem um “doutor” dizendo o que devemos fazer?
Sim, sei que temos nossas fragilidades profissionais, nossas dificuldades em articular os fundamentos teórico-metodológicos, ético-políticos e técnico-operativos.
Que categoria profissional não os têm?
Por que, então, em nossos espaços de trabalho, alguns profissionais de outras categorias nos dizem como devemos realizar o nosso processo de trabalho?
Em nossa compreensão, a resposta emerge de alguns lugares:
Em primeiro lugar, de nossa própria origem. Em uma sociedade dividida em classes sociais, em que se privilegia o lucro em detrimento dos sujeitos/trabalhadores, uma profissão que traz em sua origem trabalhar com os sujeitos que estão à margem da sociedade, naturalmente, vai carregar a discriminação que seus próprios usuários estão sujeitos.
Logo, nossa identidade tem que ser assumida, mas assumida pela vertente da garantia de direitos. Nos apropriarmos do espaço de resistência para o confronto permanente com a opressão da classe dominante. Quebrar as amarras da alienação, ao assumirmos o nosso lugar profissional. O lugar da interlocução de direitos.
Mas, antes, é preciso nos darmos conta de que, se esta profissão é contumazmente desvalorizada, é porque carregamos a mesma discriminação que os nossos usuários. E que, nos espaços profissionais, também, divididos em “classes”, pertencemos à classe trabalhadora, logo, segundo a dita “classe intelectual pensante que produz o conhecimento”, os assistentes sociais têm que executar, obedecer, não pensar, não questionar, não construir.
E, o pior, é que obedecemos aos “desmandos” nos espaços institucionais, pela nossa fragilidade de apropriação teórica, pelo nosso sentimento de desvalia, pela nossa auto-estima baixa. Vamos, então, nos tornando hospedeiros da opressão, permitindo a nossa própria opressão e a reproduzindo nas relações com os usuários quando trabalhamos na lógica dominante. Quando não assumimos com orgulho a nossa identidade profissional articulada com o nosso Projeto Ético-Político.
Contra a violação de direitos, é necessário que nós, assistentes sociais, coletivamente vamos ocupando o espaço de resistência para o enfrentamento a situações de trabalho que precarizam nossos espaços e que proporcionam o assédio moral.
(...)Um silêncio de torturas
E gritos de maldição
Um silêncio de fraturas
A se arrastarem no chão.
E o operário ouviu a voz.
De todos os seus irmãos
Os seus irmãos que morreram
Por outros que viverão.
Uma esperança sincera
Cresceu no seu coração
E dentro da tarde mansa
Agigantou-se a razão
De um homem pobre e esquecido
Razão porém que fizera
Em operário construído.
(Vínicius de Moraes – Operário em Construção)
E nós, assistentes sociais, estamos em construção, lutando para romper a alienação, para dizer não à opressão para garantirmos os nossos direitos e conseqüentemente os direitos de nossos usuários.
Quem os garante?
Como podemos em um coletivo organizado enfrentar os desmandos, a falta de respeito e a prepotência que alguns profissionais de outras categorias profissionais nos confrontam no nosso dia-a-dia profissional?
Por que sempre tem um “doutor” dizendo o que devemos fazer?
Sim, sei que temos nossas fragilidades profissionais, nossas dificuldades em articular os fundamentos teórico-metodológicos, ético-políticos e técnico-operativos.
Que categoria profissional não os têm?
Por que, então, em nossos espaços de trabalho, alguns profissionais de outras categorias nos dizem como devemos realizar o nosso processo de trabalho?
Em nossa compreensão, a resposta emerge de alguns lugares:
Em primeiro lugar, de nossa própria origem. Em uma sociedade dividida em classes sociais, em que se privilegia o lucro em detrimento dos sujeitos/trabalhadores, uma profissão que traz em sua origem trabalhar com os sujeitos que estão à margem da sociedade, naturalmente, vai carregar a discriminação que seus próprios usuários estão sujeitos.
Logo, nossa identidade tem que ser assumida, mas assumida pela vertente da garantia de direitos. Nos apropriarmos do espaço de resistência para o confronto permanente com a opressão da classe dominante. Quebrar as amarras da alienação, ao assumirmos o nosso lugar profissional. O lugar da interlocução de direitos.
Mas, antes, é preciso nos darmos conta de que, se esta profissão é contumazmente desvalorizada, é porque carregamos a mesma discriminação que os nossos usuários. E que, nos espaços profissionais, também, divididos em “classes”, pertencemos à classe trabalhadora, logo, segundo a dita “classe intelectual pensante que produz o conhecimento”, os assistentes sociais têm que executar, obedecer, não pensar, não questionar, não construir.
E, o pior, é que obedecemos aos “desmandos” nos espaços institucionais, pela nossa fragilidade de apropriação teórica, pelo nosso sentimento de desvalia, pela nossa auto-estima baixa. Vamos, então, nos tornando hospedeiros da opressão, permitindo a nossa própria opressão e a reproduzindo nas relações com os usuários quando trabalhamos na lógica dominante. Quando não assumimos com orgulho a nossa identidade profissional articulada com o nosso Projeto Ético-Político.
Contra a violação de direitos, é necessário que nós, assistentes sociais, coletivamente vamos ocupando o espaço de resistência para o enfrentamento a situações de trabalho que precarizam nossos espaços e que proporcionam o assédio moral.
(...)Um silêncio de torturas
E gritos de maldição
Um silêncio de fraturas
A se arrastarem no chão.
E o operário ouviu a voz.
De todos os seus irmãos
Os seus irmãos que morreram
Por outros que viverão.
Uma esperança sincera
Cresceu no seu coração
E dentro da tarde mansa
Agigantou-se a razão
De um homem pobre e esquecido
Razão porém que fizera
Em operário construído.
(Vínicius de Moraes – Operário em Construção)
E nós, assistentes sociais, estamos em construção, lutando para romper a alienação, para dizer não à opressão para garantirmos os nossos direitos e conseqüentemente os direitos de nossos usuários.
terça-feira, 29 de maio de 2007
OS DESAFIOS PARA ORIENTAR O TABALHO DE CONCLUSÃO DE CURSO DO ALUNO DE SERVIÇO SOCIAL
Como orientadora de Trabalhos de Conclusão de Curso, venho enfrentando alguns desafios que a nova realidade educacional vem nos confrontando.
A essência de todo o atravessamento que hoje emerge neste contexto acadêmico reflete a contradição do que está posto na sociedade capitalista contemporânea: garantir direitos ou, então, ser hospedeiro da opressão para responder as exigências do mercado.
Logo, para ser Assistente Social e estar professora e orientadora de TCC’s é necessário se apropriar do significado deste trabalho para a formação do profissional Assistente Social.
A primeira opção traz em sua essência a compreensão de que este Trabalho se constitui em um momento ímpar para os alunos que estão concluindo o curso de graduação. É um momento precioso em que o aluno deve se apropriar de todo o conteúdo teórico aprendido e articulá-lo com a prática construída nos Estágios I e II, por exemplo. Em que a experiência da realidade concreta retorna para o conhecimento aprendido e, pela reflexão, produz condições de superá-lo ao se elaborar o TCC.
É o momento do aluno, em que ele vai se apropriando, agora, não mais como aluno, mas como futuro profissional, dos fundamentos do Serviço Social.
E aos professores, ao orientar, cabe acompanhar com mão firme esta caminhada de reflexão em que juntos discutem, refletem e aprendem em movimentos de permanente superação do conhecimento. Este é o sentido do TCC e de sua orientação.
No entanto, o que hoje a realidade nos confronta?
Com a dor do aluno comprometido com a sua escolha. Que, ao chegar neste momento, se dá conta de sua fragilidade teórica, pela fragmentação da aprendizagem. Pela dificuldade de se conectar com as diretrizes curriculares. Pela falta de tempo, por estar sempre no terceiro turno do dia. Pela falta de articulação entre a teoria e a prática.
Também, neste contexto, se tornam visíveis alunos, futuros profissionais, cujo diploma é mais importante do que a profissão. Que seu interesse é o interesse do mercado. Que seu objetivo é se qualificar para somente aquilo que o mercado oferece, banalizando o Projeto Ético-Político da profissão. Logo, este momento que pode ser intensamente produtivo para alguns alunos, para outros é um entrave a mais a ser superado, portanto, os meios acabam justificando os fins. E são estes alunos que vão, então, dar guarida à “falcatrua”, ao contratar serviços de terceiros que vendem os trabalhos prontos, aviltando, dessa forma, a profissão, vendendo o conhecimento e coisificando o futuro profissional. Neste ato, passa a existir a co-responsabilidade através de duas vias que vai validando e consolidando a mercantilização do ensino como bem explicita CHAUÍ:
Se a universidade for um supermercado, então, nela entram felizes consumidores, ignorando todo o trabalho intelectual contido numa aula. (...) Recebem os conhecimentos como se estes nascessem dos toques mágicos de varinhas de condão. E, no momento das provas, ou querem resgatar os preços ou querem sair sem pagar ou abandonam o carrinho com as compras impossíveis xingando os caixas (...). É assim a universidade? Se o for, nossa produtividade será marcada pelo número de produtos arranjados nas estantes, pelo número de objetos que registramos nos caixas, pelo número de fregueses que saem contentes (apud MACIEL, 2006, p. 68).
Assim, aos poucos, vamos “formando” Assistentes Sociais hospedeiros que, para garantirem um lugar no mercado, vão perdendo o sentido ético da profissão.
A essência de todo o atravessamento que hoje emerge neste contexto acadêmico reflete a contradição do que está posto na sociedade capitalista contemporânea: garantir direitos ou, então, ser hospedeiro da opressão para responder as exigências do mercado.
Logo, para ser Assistente Social e estar professora e orientadora de TCC’s é necessário se apropriar do significado deste trabalho para a formação do profissional Assistente Social.
A primeira opção traz em sua essência a compreensão de que este Trabalho se constitui em um momento ímpar para os alunos que estão concluindo o curso de graduação. É um momento precioso em que o aluno deve se apropriar de todo o conteúdo teórico aprendido e articulá-lo com a prática construída nos Estágios I e II, por exemplo. Em que a experiência da realidade concreta retorna para o conhecimento aprendido e, pela reflexão, produz condições de superá-lo ao se elaborar o TCC.
É o momento do aluno, em que ele vai se apropriando, agora, não mais como aluno, mas como futuro profissional, dos fundamentos do Serviço Social.
E aos professores, ao orientar, cabe acompanhar com mão firme esta caminhada de reflexão em que juntos discutem, refletem e aprendem em movimentos de permanente superação do conhecimento. Este é o sentido do TCC e de sua orientação.
No entanto, o que hoje a realidade nos confronta?
Com a dor do aluno comprometido com a sua escolha. Que, ao chegar neste momento, se dá conta de sua fragilidade teórica, pela fragmentação da aprendizagem. Pela dificuldade de se conectar com as diretrizes curriculares. Pela falta de tempo, por estar sempre no terceiro turno do dia. Pela falta de articulação entre a teoria e a prática.
Também, neste contexto, se tornam visíveis alunos, futuros profissionais, cujo diploma é mais importante do que a profissão. Que seu interesse é o interesse do mercado. Que seu objetivo é se qualificar para somente aquilo que o mercado oferece, banalizando o Projeto Ético-Político da profissão. Logo, este momento que pode ser intensamente produtivo para alguns alunos, para outros é um entrave a mais a ser superado, portanto, os meios acabam justificando os fins. E são estes alunos que vão, então, dar guarida à “falcatrua”, ao contratar serviços de terceiros que vendem os trabalhos prontos, aviltando, dessa forma, a profissão, vendendo o conhecimento e coisificando o futuro profissional. Neste ato, passa a existir a co-responsabilidade através de duas vias que vai validando e consolidando a mercantilização do ensino como bem explicita CHAUÍ:
Se a universidade for um supermercado, então, nela entram felizes consumidores, ignorando todo o trabalho intelectual contido numa aula. (...) Recebem os conhecimentos como se estes nascessem dos toques mágicos de varinhas de condão. E, no momento das provas, ou querem resgatar os preços ou querem sair sem pagar ou abandonam o carrinho com as compras impossíveis xingando os caixas (...). É assim a universidade? Se o for, nossa produtividade será marcada pelo número de produtos arranjados nas estantes, pelo número de objetos que registramos nos caixas, pelo número de fregueses que saem contentes (apud MACIEL, 2006, p. 68).
Assim, aos poucos, vamos “formando” Assistentes Sociais hospedeiros que, para garantirem um lugar no mercado, vão perdendo o sentido ético da profissão.
Maria da Graça Türck
terça-feira, 22 de maio de 2007
ASSISTENTE SOCIAL “PÉ NO CHÃO”!
“O acolhimento é um palavrão para os “intelectuais do Serviço Social”. Eles gostam do discurso inflamado, que informa o ponto de chegada, mas não sabe por onde caminhar. Como garantir direitos, sem falar em acolhida, em escuta sensível, em empatia, em vínculo... impossível, o papo fica em um plano ideal, desvinculado da realidade concreta onde ocorre o processo de trabalho do assistente social” (postado por anônimo em 09.05.2007 em resposta ao artigo Acolhimento...).
Ao me defrontar com este comentário, embora anônimo, não pude deixar de trazê-lo para uma reflexão. Este é o grande “nó” do Serviço Social. Ainda não construímos um caminho para articular a teoria com a prática. E, ao assumirmos um paradigma teórico que dá conta de nosso Projeto Ético-Político, ainda não conseguimos concretizá-lo na prática, não indo além do discurso sobre o resultado.
A assistente social Maria Lúcia Martinelli, em suas falas, sempre pontua: “nós somos profissionais que trabalhamos na conjuntura, não com a conjuntura”. Ela é extremamente lúcida ao afirmar permanentemente esta máxima. Ela está dizendo que nós trabalhamos com sujeitos concretos. Que trazem em suas vidas todas as expressões da Questão Social resultado da relação capital e trabalho. Que também se expressa pela conjuntura. Logo, quem traz para nós o objeto a ser desvendado carregado da trama das relações sociais, postas pela sociedade capitalista de cunho periférico, é este sujeito, único em sua concretude, com sua história de vida, com seu sofrimento cotidiano resultado da negação de direitos. E nós, assistentes sociais, ao tê-lo em nossa frente, temos que primeiramente vê-lo como alguém que tem que ser acolhido, não como alguém que tem que ser recepcionado educadamente e ser encaminhado através de uma entrevista informativa.
A acolhida implica em escuta sensível, ao confirmar este sujeito como único, embora seja hospedeiro de sua própria opressão. Esta se consolida por ele por não se constituir como um sujeito de direitos pela própria alienação, que permeia as relações sociais que, para manter a exclusão, se retroalimenta na própria alienação.
Como podemos acolher, como podemos escutar, sem que este sujeito adquira um significado para nós assistentes sociais e sem que tenhamos um significado para eles?
Na essência do acolhimento está a empatia e a capacidade do vínculo como uma estratégia de enfrentamento ao objeto desvendado e de sua superação. Sem este caminhar, este sujeito concreto que chega a nós, continuará a ser tratado como “coisa” e nós continuaremos a ser hospedeiros da opressão, porque continuaremos a reproduzir as relações de opressão.
Assistente Social “pé no chão” é aquele que produz na prática a articulação desta com a teoria. Que se orienta pelo Projeto Ético-Político, ocupando os espaços de resistência na garantia de direitos.
Assistente Social “pé no chão” é aquele que sabe que, para garantir direitos, necessitará aprofundar o conhecimento e permanentemente superá-lo pela realidade concreta que nos confronta, sem que tenhamos que abandonar os fundamentos que dão sustentação a nossa profissão.
Assistente Social “pé no chão” sabe que o caminho é árduo e que só a realidade concreta desafia o conhecimento do Serviço Social, porque é desta realidade concreta que consolidamos o conhecimento e construímos caminhos.
No entanto, os “intelectuais do Serviço Social” estão devendo aos assistentes sociais “pés no chão” a metodologia de aplicação do Método Dialético Materialista para consolidar o nosso processo de trabalho no cotidiano, na garantia de direitos.
Ao me defrontar com este comentário, embora anônimo, não pude deixar de trazê-lo para uma reflexão. Este é o grande “nó” do Serviço Social. Ainda não construímos um caminho para articular a teoria com a prática. E, ao assumirmos um paradigma teórico que dá conta de nosso Projeto Ético-Político, ainda não conseguimos concretizá-lo na prática, não indo além do discurso sobre o resultado.
A assistente social Maria Lúcia Martinelli, em suas falas, sempre pontua: “nós somos profissionais que trabalhamos na conjuntura, não com a conjuntura”. Ela é extremamente lúcida ao afirmar permanentemente esta máxima. Ela está dizendo que nós trabalhamos com sujeitos concretos. Que trazem em suas vidas todas as expressões da Questão Social resultado da relação capital e trabalho. Que também se expressa pela conjuntura. Logo, quem traz para nós o objeto a ser desvendado carregado da trama das relações sociais, postas pela sociedade capitalista de cunho periférico, é este sujeito, único em sua concretude, com sua história de vida, com seu sofrimento cotidiano resultado da negação de direitos. E nós, assistentes sociais, ao tê-lo em nossa frente, temos que primeiramente vê-lo como alguém que tem que ser acolhido, não como alguém que tem que ser recepcionado educadamente e ser encaminhado através de uma entrevista informativa.
A acolhida implica em escuta sensível, ao confirmar este sujeito como único, embora seja hospedeiro de sua própria opressão. Esta se consolida por ele por não se constituir como um sujeito de direitos pela própria alienação, que permeia as relações sociais que, para manter a exclusão, se retroalimenta na própria alienação.
Como podemos acolher, como podemos escutar, sem que este sujeito adquira um significado para nós assistentes sociais e sem que tenhamos um significado para eles?
Na essência do acolhimento está a empatia e a capacidade do vínculo como uma estratégia de enfrentamento ao objeto desvendado e de sua superação. Sem este caminhar, este sujeito concreto que chega a nós, continuará a ser tratado como “coisa” e nós continuaremos a ser hospedeiros da opressão, porque continuaremos a reproduzir as relações de opressão.
Assistente Social “pé no chão” é aquele que produz na prática a articulação desta com a teoria. Que se orienta pelo Projeto Ético-Político, ocupando os espaços de resistência na garantia de direitos.
Assistente Social “pé no chão” é aquele que sabe que, para garantir direitos, necessitará aprofundar o conhecimento e permanentemente superá-lo pela realidade concreta que nos confronta, sem que tenhamos que abandonar os fundamentos que dão sustentação a nossa profissão.
Assistente Social “pé no chão” sabe que o caminho é árduo e que só a realidade concreta desafia o conhecimento do Serviço Social, porque é desta realidade concreta que consolidamos o conhecimento e construímos caminhos.
No entanto, os “intelectuais do Serviço Social” estão devendo aos assistentes sociais “pés no chão” a metodologia de aplicação do Método Dialético Materialista para consolidar o nosso processo de trabalho no cotidiano, na garantia de direitos.
Maria da Graça Türck
segunda-feira, 14 de maio de 2007
NA CONTRAMÃO DO QUE ESTÁ AÍ, SEJAM BEM-VINDAS AS “OVELHAS NEGRAS”!
“Ovelhas negras” em um mundo dominado pela desigualdade é heresia para quem deseja só ouvir o “balido” das ovelhas submissas. Este rebanho cresce assustadoramente em todos os cantos, em todas as profissões, porque se contenta com o brilho vazio do sucesso, do dinheiro fácil, das relações fáceis e coisificadas.
É mais fácil aceitar do que lutar!
É mais fácil ser desleal do que manter a ética!
É tão mais fácil ser hospedeiro do que ser protagonista!
Em um mundo com estas relações, estar na luta e na defesa de direitos, é caminhar quase sozinha.
Mas quase, só quase...
Como me dizia uma amiga, sempre que chegávamos ao fundo do poço da desesperança, existe uma tribo perdida por aí. Logo, é só nos acharmos em um coletivo e saberemos que não estamos sozinhos na luta contra a intolerância, contra a ignorância, contra o egoísmo, contra o individualismo, contra a opressão, contra a violação de direitos...
Portanto, para nós assistentes sociais, sempre teremos que escolher neste imenso “rebanho”.
A escolha sempre será dicotômica: ou “ovelhas” que seguem sem questionar porque logo ali receberão as benesses do patrão; ou as “ovelhas negras”, que não negociam seu Projeto Ético-Político e conseqüentemente sua dignidade.
Com certeza, com todas as intempéries, com todas as ameaças, com todas as dificuldades, a minha escolha sempre será a defesa intransigente dos direitos humanos e a busca por uma sociedade mais justa e igualitária.
Feliz dia dos assistentes sociais a todas as “ovelhas negras” que não aceitam a “canga” da opressão, porque sabem que a “canga” do patrão traz o brilho fácil da opressão e mata a dignidade da vida...
É mais fácil aceitar do que lutar!
É mais fácil ser desleal do que manter a ética!
É tão mais fácil ser hospedeiro do que ser protagonista!
Em um mundo com estas relações, estar na luta e na defesa de direitos, é caminhar quase sozinha.
Mas quase, só quase...
Como me dizia uma amiga, sempre que chegávamos ao fundo do poço da desesperança, existe uma tribo perdida por aí. Logo, é só nos acharmos em um coletivo e saberemos que não estamos sozinhos na luta contra a intolerância, contra a ignorância, contra o egoísmo, contra o individualismo, contra a opressão, contra a violação de direitos...
Portanto, para nós assistentes sociais, sempre teremos que escolher neste imenso “rebanho”.
A escolha sempre será dicotômica: ou “ovelhas” que seguem sem questionar porque logo ali receberão as benesses do patrão; ou as “ovelhas negras”, que não negociam seu Projeto Ético-Político e conseqüentemente sua dignidade.
Com certeza, com todas as intempéries, com todas as ameaças, com todas as dificuldades, a minha escolha sempre será a defesa intransigente dos direitos humanos e a busca por uma sociedade mais justa e igualitária.
Feliz dia dos assistentes sociais a todas as “ovelhas negras” que não aceitam a “canga” da opressão, porque sabem que a “canga” do patrão traz o brilho fácil da opressão e mata a dignidade da vida...
Maria da Graça Türck
segunda-feira, 7 de maio de 2007
OS “HOSPEDEIROS” DA OPRESSÃO: DIGNOS REPRESENTANTES DA CLASSE DOMINANTE
Quem se defende porque lhe tiram o ar
Ao lhe apertar a garganta, para este há um parágrafo
Que diz: ele agiu em legítima defesa. Mas
O mesmo parágrafo silencia
Quando vocês se defendem porque lhes tiram o pão.
E no entanto morre quem não come, e quem não come o suficiente
Morre lentamente. Durante os anos todos em que morre
Não lhe é permitido se defender (BRECHT, 2006, p.73).
Ao lhe apertar a garganta, para este há um parágrafo
Que diz: ele agiu em legítima defesa. Mas
O mesmo parágrafo silencia
Quando vocês se defendem porque lhes tiram o pão.
E no entanto morre quem não come, e quem não come o suficiente
Morre lentamente. Durante os anos todos em que morre
Não lhe é permitido se defender (BRECHT, 2006, p.73).
Logo, votar pela redução da maioridade penal é fácil para quem vem vivendo e se alimentando da desigualdade social.
É fácil argumentar a barbárie com belas palavras revestidas da hipocrisia e do cinismo dos dignos representantes da classe dominante.
É fácil apelar para o emocional de uma população medrosa pelo recrudescimento da violência social.
É fácil achar o caminho para manter a opressão, com o apoio dos oprimidos, aprisionados pela sua própria alienação e, conseqüentemente, pela própria negação de sua identidade de classe.
É fácil justificar salários altos, pela argumentação de sua própria competência profissional que só existe, com certeza, na classe dominante.
É fácil descaracterizar e desqualificar a corrupção, porque esta tem origem no núcleo da classe dominante.
É fácil encontrar argumentos para continuar criminalizando os sem-tetos, os sem-terras, os sem-trabalho, os sem-comida, os sem-tudo!
É fácil ser “hospedeiro” da opressão, para oprimir os seus iguais, sem se dar conta de sua própria opressão!
É fácil ter um preço!
É fácil vender a dignidade para manter-se no topo de uma sociedade perversa e excludente!
O que é difícil é ser assistente social e nos orientarmos em uma sociedade onde tudo está à venda, até mesmo a dignidade...
Maria da Graça Maurer Gomes Türck
segunda-feira, 23 de abril de 2007
GARANTIA DE DIREITOS E PRECONCEITO: UM DESAFIO PARA OS ASSISTENTES SOCIAIS
Por volta de 2003, em Porto Alegre, em um evento em que participei como palestrante, veio ao meu encontro um homem de aproximadamente uns 45 anos, vestindo uma calça jeans, uma camiseta preta, com os cabelos cumpridos, amarrados em um “rabo de cavalo”. Me olhou, sorriu, me cumprimentou e disse: Graça, não lembras de mim?
Olhei interrogativamente e ele disse: No final do evento te direi quem eu sou!
Fiquei puxando pela memória. Quem seria este personagem, que com certeza carregava em sua experiência de vida, com muita intensidade, um encontro que deveria ter sido muito significativo.
Ao final do evento, ele se aproximou e disse: Lembrou?
E eu, mais do que depressa: Com certeza!
E, como um filme, uma das experiências mais marcantes que vivi profissionalmente me dominou integralmente.
Por que das mais marcantes?
Porque esta experiência me confrontou com minha subjetividade e com as minhas contradições.
No Juizado da Infância e da Juventude de Porto Alegre (1995), de posse do processo de solicitação de termo de guarda de um tio em relação a seus sobrinhos, me dirigi à recepção e chamei pelo nome do então responsável. Levantou uma mulher, com os cabelos longos e soltos, de saia, sandália, unhas compridas e pintadas e um vozeirão masculino: Sou eu, boa tarde!
Naquele exato momento, nos segundos que me separavam da resposta, eu vivi com intensidade todos os meus preconceitos, minhas dúvidas e meus receios.
Nunca foi tão difícil retomar o Projeto Ético-Político em minhas mãos e me dar conta que ao ter feito esta escolha, naqueles poucos segundos, havia enfrentado e superado o pensamento da classe dominante e ocupado o espaço de resistência na garantia de direitos.
"Podes me acompanhar? Oito anos depois do nosso encontro no Juizado, em 2003, eu recebi o retorno!
Graça, eu quero te dizer que tu para mim, és inesquecível. Nunca, ninguém tinha me tratado com tanta dignidade. Queres saber como estão, hoje, os meus sobrinhos?"
E seguimos caminhando sob o céu cheio de estrelas, pelas ruas de Porto Alegre.
E, naquele momento, tive fortemente a certeza do lugar que eu ocupo, a quem sirvo e qual o meu compromisso como pessoa e como profissional.
Me apropriei, mais ainda, de que o cotidiano profissional em que nós assistentes sociais transitamos, a partir da Questão Social como nosso objeto, é um cotidiano de enfrentamento permanente em relação aos nossos próprios preconceitos, à nossa própria classe social e ao nosso Projeto Ético-Político.
Neste espaço, ouso inferir que não existe uma profissão que viva tão intensamente a contradição no cotidiano, em que as nossas vivências pessoais, nossos valores e princípios éticos não estejam permanentemente sendo testados.
E a forma como lidamos com estas contradições retornam ao contexto profissional e atingem diretamente ao usuário, sujeito de nossa intervenção. São nestes momentos que se diferencia o discurso do compromisso!
Olhei interrogativamente e ele disse: No final do evento te direi quem eu sou!
Fiquei puxando pela memória. Quem seria este personagem, que com certeza carregava em sua experiência de vida, com muita intensidade, um encontro que deveria ter sido muito significativo.
Ao final do evento, ele se aproximou e disse: Lembrou?
E eu, mais do que depressa: Com certeza!
E, como um filme, uma das experiências mais marcantes que vivi profissionalmente me dominou integralmente.
Por que das mais marcantes?
Porque esta experiência me confrontou com minha subjetividade e com as minhas contradições.
No Juizado da Infância e da Juventude de Porto Alegre (1995), de posse do processo de solicitação de termo de guarda de um tio em relação a seus sobrinhos, me dirigi à recepção e chamei pelo nome do então responsável. Levantou uma mulher, com os cabelos longos e soltos, de saia, sandália, unhas compridas e pintadas e um vozeirão masculino: Sou eu, boa tarde!
Naquele exato momento, nos segundos que me separavam da resposta, eu vivi com intensidade todos os meus preconceitos, minhas dúvidas e meus receios.
Nunca foi tão difícil retomar o Projeto Ético-Político em minhas mãos e me dar conta que ao ter feito esta escolha, naqueles poucos segundos, havia enfrentado e superado o pensamento da classe dominante e ocupado o espaço de resistência na garantia de direitos.
"Podes me acompanhar? Oito anos depois do nosso encontro no Juizado, em 2003, eu recebi o retorno!
Graça, eu quero te dizer que tu para mim, és inesquecível. Nunca, ninguém tinha me tratado com tanta dignidade. Queres saber como estão, hoje, os meus sobrinhos?"
E seguimos caminhando sob o céu cheio de estrelas, pelas ruas de Porto Alegre.
E, naquele momento, tive fortemente a certeza do lugar que eu ocupo, a quem sirvo e qual o meu compromisso como pessoa e como profissional.
Me apropriei, mais ainda, de que o cotidiano profissional em que nós assistentes sociais transitamos, a partir da Questão Social como nosso objeto, é um cotidiano de enfrentamento permanente em relação aos nossos próprios preconceitos, à nossa própria classe social e ao nosso Projeto Ético-Político.
Neste espaço, ouso inferir que não existe uma profissão que viva tão intensamente a contradição no cotidiano, em que as nossas vivências pessoais, nossos valores e princípios éticos não estejam permanentemente sendo testados.
E a forma como lidamos com estas contradições retornam ao contexto profissional e atingem diretamente ao usuário, sujeito de nossa intervenção. São nestes momentos que se diferencia o discurso do compromisso!
quinta-feira, 19 de abril de 2007
Filmografia Social
segunda-feira, 16 de abril de 2007
COLABORADORES VERSUS TRABALHADORES: O QUE ESTÁ EM JOGO?
Quem circula no âmbito das empresas está se confrontando com uma figura de linguagem que está dominando o cenário do trabalho:
“Colaboradores”.
Na linguagem cotidiana empresarial existe um esforço em substituir o trabalhador por colaborador.
O que está em jogo neste cenário que vai se explicitando, primeiro, pela linguagem?
A negação da luta de classes.
Ao transformar o trabalhador em “colaborador” está se inaugurando uma nova artimanha na exploração do trabalho. Isto é, esta denominação vai atingir diretamente a subjetividade do trabalhador “vendendo” a ilusão de que ele, trabalhador, passa a fazer parte da empresa ao ascender socialmente pelo auxílio que presta ao colaborar.
Logo, não fica explicitado para ele que, ao colaborar, ele transforma a relação de trabalho em ajuda, em auxílio, isto é, ele, “colaborador”, participa sem pertencer.
Portanto, não reivindica, simplesmente aceita pela doce ilusão de que está se inserindo no clube fechado dos patrões, se enredando na armadilha posta para transformá-lo cada vez mais em coisa. E, ao ir perdendo o seu vínculo de classe, ao negar sua identidade, vai enfraquecendo seu coletivo e, conseqüentemente, vai deixando de assumir o seu papel na história, renunciando a garantia de seus direitos.
E o assistente social? Como se posiciona nestes espaços sócio-ocupacionais?
Assume o “colaborador” negando o trabalhador?
Implementa seu processo de trabalho na manutenção da exploração?
Nega também ao trabalhador o direito de sua identidade de classe?
“(...) Sentindo que a violência
Não dobraria o operário
Um dia tentou o patrão
Dobrá-lo de modo vário.
De sorte que o foi levando
Ao alto da construção
E num momento de tempo
Mostrou-lhe toda a região
E apontando-a ao operário
Fez-lhe esta declaração:
-Dar-te-ei todo esse poder
E a sua satisfação
Porque a mim me foi entregue
E dou-o a quem bem quiser.
Dou-te tempo de lazer
Dou-te tempo de mulher. Portanto, tudo o que vês
Será teu se me adorares
E, ainda mais, se abandonares
O que te faz dizer não.
Disse e fitou o operário
Que olhava e que refletia
Mas o que via o operário
O patrão nunca veria.
O operário via as casas
E dentro das estruturas
Via coisas, objetos
Produtos, manufaturas.
Via tudo o que fazia
O lucro do seu patrão
E em cada coisa que via
Misteriosamente havia
A marca de sua mão.
E o operário disse: Não!
-Loucura!- gritou o patrão
Não vês o que te dou eu?
- Mentira! – disse o operário
Não podes dar-me o que é meu
E um grande silêncio fez-se
Dentro do seu coração
Um silêncio de martírios
Um silêncio de prisão.
Um silêncio povoado
De pedidos de perdão
Um silêncio apavorado
Com o medo em solidão.
Um silêncio de torturas
E gritos de maldição
Um silêncio de fraturas
A se arrastarem no chão.
E o operário ouviu a voz
De todos os seus irmãos
Os seus irmãos que morreram
Por outros que viverão.
Uma esperança sincera
Cresceu no seu coração
E dentro da tarde mansa
Agigantou-se a razão
De um homem pobre e esquecido
Razão porém que fizera
Em operário construído.”
(Vinícius de Moraes)
Quem nasceu da relação capital e trabalho nunca poderá ser transformado em “colaborador”, porque através da história foi forjado pela resistência no enfrentamento da exploração do trabalho.
“Colaboradores”.
Na linguagem cotidiana empresarial existe um esforço em substituir o trabalhador por colaborador.
O que está em jogo neste cenário que vai se explicitando, primeiro, pela linguagem?
A negação da luta de classes.
Ao transformar o trabalhador em “colaborador” está se inaugurando uma nova artimanha na exploração do trabalho. Isto é, esta denominação vai atingir diretamente a subjetividade do trabalhador “vendendo” a ilusão de que ele, trabalhador, passa a fazer parte da empresa ao ascender socialmente pelo auxílio que presta ao colaborar.
Logo, não fica explicitado para ele que, ao colaborar, ele transforma a relação de trabalho em ajuda, em auxílio, isto é, ele, “colaborador”, participa sem pertencer.
Portanto, não reivindica, simplesmente aceita pela doce ilusão de que está se inserindo no clube fechado dos patrões, se enredando na armadilha posta para transformá-lo cada vez mais em coisa. E, ao ir perdendo o seu vínculo de classe, ao negar sua identidade, vai enfraquecendo seu coletivo e, conseqüentemente, vai deixando de assumir o seu papel na história, renunciando a garantia de seus direitos.
E o assistente social? Como se posiciona nestes espaços sócio-ocupacionais?
Assume o “colaborador” negando o trabalhador?
Implementa seu processo de trabalho na manutenção da exploração?
Nega também ao trabalhador o direito de sua identidade de classe?
“(...) Sentindo que a violência
Não dobraria o operário
Um dia tentou o patrão
Dobrá-lo de modo vário.
De sorte que o foi levando
Ao alto da construção
E num momento de tempo
Mostrou-lhe toda a região
E apontando-a ao operário
Fez-lhe esta declaração:
-Dar-te-ei todo esse poder
E a sua satisfação
Porque a mim me foi entregue
E dou-o a quem bem quiser.
Dou-te tempo de lazer
Dou-te tempo de mulher. Portanto, tudo o que vês
Será teu se me adorares
E, ainda mais, se abandonares
O que te faz dizer não.
Disse e fitou o operário
Que olhava e que refletia
Mas o que via o operário
O patrão nunca veria.
O operário via as casas
E dentro das estruturas
Via coisas, objetos
Produtos, manufaturas.
Via tudo o que fazia
O lucro do seu patrão
E em cada coisa que via
Misteriosamente havia
A marca de sua mão.
E o operário disse: Não!
-Loucura!- gritou o patrão
Não vês o que te dou eu?
- Mentira! – disse o operário
Não podes dar-me o que é meu
E um grande silêncio fez-se
Dentro do seu coração
Um silêncio de martírios
Um silêncio de prisão.
Um silêncio povoado
De pedidos de perdão
Um silêncio apavorado
Com o medo em solidão.
Um silêncio de torturas
E gritos de maldição
Um silêncio de fraturas
A se arrastarem no chão.
E o operário ouviu a voz
De todos os seus irmãos
Os seus irmãos que morreram
Por outros que viverão.
Uma esperança sincera
Cresceu no seu coração
E dentro da tarde mansa
Agigantou-se a razão
De um homem pobre e esquecido
Razão porém que fizera
Em operário construído.”
(Vinícius de Moraes)
Quem nasceu da relação capital e trabalho nunca poderá ser transformado em “colaborador”, porque através da história foi forjado pela resistência no enfrentamento da exploração do trabalho.
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