segunda-feira, 19 de junho de 2006

REDE INTERNA E FUTEBOL

Futebol e Rede Interna: só talento não basta, é preciso competência relacional para driblar a inveja, a competição excludente e o poder discricionário.

Olhar os jogos que se desenrolam na Alemanha, na busca da Copa do Mundo, é aprender o significado in lócus, da Rede Interna.

Nota-se, por exemplo, a seleção brasileira, composta de muitos talentos individuais, sem, aparentenmente, um sentido de coletivo. São homens/meninos, milionários, mimados por uma imprensa que insufla o ego, vendendo, não só a eles, mas aos brasileiros, o já ganhou. Ignorando e desrespeitando os adversários. Ninguém ganha sem esforço, sem coletivo, sem respeito.Esquecem que futebol também é trabalho de equipe, e trabalho de equipe é um coletivo de talentos e experiências vividas, articuladas com um objetivo comum, na construção de caminhos metodológicos para se chegar ao produto, ao gol, à vitória!

Os homens/meninos mimados, jogadores, esquecem que futebol também é trabalho. Que eles vendem uma mercadoria. O seu talento com a bola. Esquecem que, na sociedade capitalista ocidental, eles são aceitos e reverenciados somente enquanto produzem para a vitória. Mas, se deixarem de produzir, são postos de lado, como uma mercadoria sem valor.

Estar na Rede Interna é, portanto, antes de tudo, construir espaços de relação, onde existe lugar para as divergências, para as diferenças, para a humildade, para a comunicação, para a aprendizagem e, principalmente, para aprender que sem um coletivo, não se chega ao fim do caminho!

Competição excludente, inveja e poder discricionário levam, em qualquer espaço de trabalhe que se ocupe, à impossibilidade de se construir vitórias e garantir direitos.

Logo, quando nos deparamos com a seleção brasileira treinando e jogando, surge um ‘nó’ que aperta a garganta, porque, ali, está explicitado o descompromisso com o coletivo, com o objetivo comum. Seus componentes parecem estar voltados para seus próprios interesses, desperdiçando a sinergia do movimento coletivo, para resolver, num ‘passe de mágica’ individual, o trabalho que é de todos.

Rede Interna não rima com o individualismo exacerbado e nem com um coletivo sufocante.

Rede Interna respeita o individual e compõe o coletivo em que, tanto um como o outro, se complementam, mas mantêm suas identidades.

Maria da Graça Türck

segunda-feira, 12 de junho de 2006

A CRIMINALIZAÇÃO DA POBREZA É UMA TENTATIVA DE LEGALIZAR A VIOLAÇÃO DE DIREITOS?

Criminalizar a pobreza é explicitar a luta de classes, é a tentativa permanente de legalizar a violação de direitos, que hoje se encontra mais recrudecida.

Nos espaços sociais mais imprevisíveis, se escuta a fala de representantes que deveriam garantir direitos, na defesa da culpabilização da pobreza, ao se referirem à violência cotidiana. Logo, os sujeitos que trazem em suas vidas todas as expressões da Questão Social são tratados como "pobres". Não como sujeitos. Mas simplesmente como pobres.

Pobres – “irresponsáveis, que se tornam fábricas de filhos”. Pobres – “negrinhos ranhentos”.

Pobres – “filhos drogados, com mães irresponsáveis”. Pobres – “menores infratores”.

Fala-se irresponsavelmente. Fala-se assim em espaços públicos, oferecendo-se receitas na contenção da violência, as quais circulam também na grande mídia.

E onde se faz o contraponto?!

Em que espaço se pode discutir a concentração de renda?! A falta de uma formação profissional que priorize o conhecimento em detrimento de ideologias?!

Onde priorizar uma ação que implemente o Estatuto da Criança e do Adolescente, sem os ransos do antigo Código de Menores?!

Onde se pode ter a informação sobre um adolescente autor de ato infracional, sem que se fale de um menor infrator?!

Onde se pode discutir planejamento familiar sem que se direcione exclusivamente para os pobres “fabricantes de filhos” e, conseqüentemente, culpados pela violência?

Onde se apropriar dos meandros da sociedade capitalista da América Latina, que consegue, competentemente, manter a desigualdade social e convencer os que vivem esta desigualdade a defender as estruturas e os instrumentos sociais de sua própria opressão?!

Onde buscar o entendimento de que o aparente mascara a realidade e mantém a alienação?!

Com certeza, para nós, Assistentes Sociais, a resposta está imbricada na apropriação de nosso Projeto Ético-Político, na garantia permanente dos direitos humanos e na busca permanente de uma sociedade mais justa e igualitária e, conseqüentemente, ocupando os espaços de resistência na interlocução destes direitos.

Maria da Graça Maurer Gomes Türck

segunda-feira, 5 de junho de 2006

O APARENTE NA MANIFESTAÇÃO DA QUESTÃO SOCIAL

Estar atento ao que se vislumbra no horizonte do social é estar articulada com as expressões que emergem da Questão Social.

Nem tudo que parece ser é... E é neste movimento de desvelar o aparente que o Processo de Trabalho do Assistente Social vai se instituindo para a superação da explicação dos fenômenos que se explicitam pela desigualdade social.

Logo, se apropriar do aparente para compreender o fenômeno, por exemplo, do abuso sexual intrafamiliar é ir além do julgamento puro e simples, da busca de um culpado e de uma vítima. É ir à essência do fenômeno para desvelar todos os patamares de responsabilidade na violação de direitos de uma determinada criança, em uma determinada família, em uma determinada classe social, em uma determinada sociedade.

“Desse modo, o movimento de nossa reflexão pode e deve reproduzir o movimento através do qual a essência se traduz, se trai, se reencontra em si mesma: mais rica, mais profunda que o fenômeno e, todavia, expressa por ele. A 'expressão', não devemos esquecê-la, ao mesmo tempo implica e dissimula, oculta e revela, traduz e trai o que ela expressa!" (LEFEBVRE, 1991, p.217).

Portanto, se apropriar deste movimento é se apropriar do Método Dialético Materialista para analisar uma realidade cotidiana permeada pela violência, traduzida nas relações sociais, produto da sociedade capitalista. E não distanciar-se do fenômeno abuso sexual intrafamiliar através da eterna pergunta: o que tem a ver capital e trabalho com abuso sexual?

Muito, à medida que nestas relações estão postas a reificação, a fetichização, a mais-valia, a alienação e a luta de classes. Logo, as relações de violência, então, são vividas pela desvalorização do humano e pela busca permanente do poder e do ganho numa sociedade excludente que produz a violência.

Maria da Graça Türck

terça-feira, 30 de maio de 2006

ABANDONO: UMA EXPRESSÃO DA QUESTÃO SOCIAL!

Abandono, cujo significado semântico é “deixar, largar, desamparar, desistir de, menosprezar” (BUARQUE FERREIRA, 1985, p.1), indica o ato de abandonar.

O abandono, simplesmente, em muitas situações, não se visualiza, se sente. Também faz parte da violência. De qualquer ato de violência: do abuso sexual à negligência. Da delinqüência aos meninos de rua. Do morador de rua ao idoso asilado.

Abandonar é, antes de tudo, se eximir de responsabilidade afetiva de quem, um dia, convivemos no cotidiano, no início da vida ou, então, ao longo da vida.

Abandonar é violência na medida em que o abandono traz na sua essência o desamparo. No entanto, julgar o abandono é o caminho mais fácil para quem não consegue compreender as relações sociais que nos aprisionam na vertente do lucro - priorizar a mais-valia, fazer a apologia ao individualismo, propiciar ao homem a necessidade permanente da competição, do ter.

E o resultado é o abandono. É o isolamento social. Para ter, deixo de conviver. Para manter, convivo com quem me trará ganhos. E, gradativamente, o abandono vai se instituindo nas relações. Ou pelo abandono sem ruptura de presença, que aparece através da delinqüência infanto-juvenil ou na violência intrafamiliar, ou através do abandono com ruptura de presença, circulando na história de vida de mães que abandonam ou de meninos de rua. Rever essas relações é se apropriar do abandono.

Ao abandonar, se fortalece a violência e a justificativa dos poderosos.

Olhar para o abandono é olhar também para a falta de educação, de saúde, de emprego e de comida. É se dar conta que caminham juntos ao abandono, a economia e a política na manutenção da violação de direitos.

Maria da Graça Maurer Gomes Türck

quinta-feira, 25 de maio de 2006

Primeira impressão: São Luís do Maranhão!


Outro extremo do Brasil! Uma cidade linda, que lembra a tranqüilidade das cidades interioranas. Cujo mar, quente e escuro, nos dá a dimensão exata deste país, da cobiça estrangeira e da espoliação a que estamos sujeitos. Olho ao redor e vejo uma cidade antiga, moderna, onde predomina a horizontalidade. No entanto, altos edifícios luxuosos já demarcam as classes sociais – os ricos e os pobres. A diferença entre o nordeste e o sul é que, no sul, estas diferenças são “mascaradas”, não se mostram com tanta nitidez.

São Luís tem sua população mesclada por três etnias que estão na raiz do povo brasileiro – o índio, o negro e o português. É um povo lindo que me fala da identidade de ser brasileiro.

O centro histórico, belíssimo, traz as marcas da colonização portuguesa, seus casarões com azulejos coloniais lembram com intensidade que já fomos colônia, e, hoje, andar pelas suas ruas é respirar esta história e saber que existem várias formas de continuarmos colônia.

A música, a arte, é a expressão desta população, que encanta e comove, mas, para apreciá-la, não posso deixar de ver o mundo invisível da exploração sexual (adulta e juvenil), que não é diferente de qualquer capital brasileira. Só traz nuances diferentes, pela cultura, pela região, pela etnia e pelo recrudescimento da Questão Social.

A comida, que delícia! Frutos do mar, tão farto, que me pergunto: por que a fome?

O guaraná “Jesus”, uma mistura de gengibre com canela, uma bebida gostosa, que, pelo que sei, não é consumida no sul. Mas, pasmem, me relataram que sua fórmula foi vendida para a Coca-cola, que a produz para ser consumida no Maranhão – ah, o capital, o mercado, a concorrência!

E os Assistentes Sociais, categoria comprometida, trabalhadora, sedenta de conhecimento para garantir direitos. Com elas, me senti extremamente fortalecida para continuar na luta!

Até breve!

Maria da Graça Türck

sexta-feira, 19 de maio de 2006

EU ODEIO A QUESTÃO SOCIAL!

Eu odeio a Questão Social porque ela me lembra, todo o dia, que, para trabalhar com aquela mãe cujo filho se droga, eu tenho que entender como funciona a sociedade capitalista e os processos sociais que emergem na vida dos sujeitos.

Eu odeio a Questão Social porque, ao falar na dificuldade de se conseguir um emprego, ela me lembra das forças em tensão entre o capital e o trabalho e da discussão permanente em torno da flexibilização das leis trabalhistas para priorizar, segundo os representantes do capital, mais emprego!

Eu odeio a Questão Social porque ela me lembra que a corrupção é seu fruto mais dileto, porque ela explicita todos os dias que, para manter os privilégios de poucos, a lei do mercado se institui nas relações sociais e vicia as instituições.

Eu odeio a Questão Social porque ela está presente na voz do locutor de rádio quando ele diz que, em São Paulo (2006), na situação de crise que ora esta cidade vive, “a polícia só matou 101 suspeitos”. Mas quem são estes suspeitos?! Coibir a violência, por esta lógica, é instituir a barbárie...

Eu odeio a Questão Social porque ela me lembra que os excluídos de todos os direitos continuam sem direitos e contando com atendimentos paliativos e setorizados.

Eu odeio a Questão Social porque ela denuncia que a educação passou a ser mercadoria e não mais um direito, não mais um espaço de construção do conhecimento. Os alunos são clientes e os professores, meros vendedores.

Eu odeio a Questão Social porque como Assistente Social ela me ensinou que a violação de direitos é um produto da relação capital e trabalho.

E, finalmente, eu odeio a Questão Social porque, ao me apropriar dela definitivamente, me aproprio de minha consciência...

Maria da Graça Maurer Gomes Türck

Encontro


O campus de Cachoeira do Sul da Ulbra, através de uma promoção do Curso de Serviço Social, recebe nos dias 6 e 7 de junho o 3° Encontro Regional de Trabalhadores na Área da Criança e do Adolescente com o tema "Rede de Atendimento à Criança e ao Adolescente".

A Professora e Assistente Social Maria da Graça Türck estará fazendo parte do evento no 2° Painel do dia 6, com início às 19h15min, sob o título "O Papel das Instituições na Construção da Rede de Atendimento à Criança e ao Adolescente". Farão parte, ainda, da discusão José Antônio Taschetto Mota, Delegado da Delegacia de Proteção à Criança e ao Adolescente, Wanderlei José Herbstrith Willig, Promotor de Justiça da Promotoria Cível de Cachoeira do Sul, e o debatedor Vanderci José Borges Maciel. O Painel contará com a coordenação da Professora Sissi Romi Hörbe – 24ª CRE.

A realização deste 3° Encontro conta com a parceria da 24ª Coordenadoria Regional de Educação, da Delegacia de Proteção à Criança e ao Adolescente e do Conselho Municipal dos Direitos da Criança e do Adolescente (COMDICA).

Maiores informações sobre ingresso e inscrições entrar em contato com o curso de Serviço Social da Ulbra.

segunda-feira, 8 de maio de 2006

SIM, SOU ASSISTENTE SOCIAL!

Todos os dias quando me levanto me pergunto: por que escolhi esta profissão?

Ela permanentemente está presente no meu cotidiano. Quando vou ao Parque da Redenção, num domingo de sol, cheio de gente, me sinto feliz, mas aí... O meu outro eu - Assistente Social - chega e diz: "olha ali aquela criança descalça neste frio, cheirando loló. Olha mais adiante aquele homem dormindo ao relento". Olho, então, ao redor para ver se tem mais alguém preocupado com as cenas que o cotidiano nos esfrega na cara. Mas fico surpresa, ninguém nota!

Me dou conta de que esta realidade, além de ser banalizada, é evitada pela consciência de quem não quer ver. É um mundo que existe de forma invisível, para que o nosso "mundo real" possa existir sem culpa...

Ah! Me esqueci... Por que sou Assistente Social?

Todos os dias, o cotidiano me responde porque sou Assistente Social. Porque, nos dias de semana, voltando à noite da Universidade, olhos atentos na estrada, me deparo com cenas, ao longo do caminho, a observar o mundo invisível que ninguém vê: adolescentes cheirando, se injetando, se prostituindo, numa ciranda, novamente, de omissão e de descaso. Eles somente serão notados quando ameaçarem "os homens de bem", mas - aí é que está - não para a busca coletiva de um processo que os inclua na sociedade. Pelo contrário. Será para se discutir - isso sim - quantas cadeias mais teremos que construir, dando espaço direto à insensatez social e ao descompromisso com a infância e com a adolescência, responsabilizando-se, assim, a pobreza e o número de filhos pela violência cotidiana.

Sempre são eles, nunca somos nós. Nunca se analisa a sociedade capitalista em que vivemos e a sua forma perversa de exclusão.

Por que sou Assistente Social?

Estou sempre atenta a este mundo que passa desapercebido. Quando ouço rádio ou vejo televisão, fico discutindo com as notícias.

Como pode o âncora do jornal da noite ter uma visão tão estreita da realidade, quando trata o Movimento dos Sem Terra como um movimento de bandidos? Qualquer argumentação contrária leva a pexa do discurso antigo.

Discurso antigo é o deles! Porta-vozes de quem oprime...

Por que sou Assistente Social?

Porque olho o mundo invisível dos sem direitos. Dos famintos, dos doentes, dos sem educação, dos desesperançados, dos espoliados, dos excluídos. Porque sei que os donos do capital têm seus instrumentos – leia-se, aí, a Grande Mídia – para manterem a desinformação, a opressão e os privilégios.

E os oprimidos?! O que têm?!

Por que sou Assistente Social?!

Porque sou indignada com a injustiça, porque direitos, para mim, só têm significado com garantia. Porque esta escolha profissional veio me possibilitar, ao longo de minha vida, estar na luta permanente, na defesa intransigente dos direitos humanos e na busca de uma sociedade mais justa.

Feliz dia dos Assistentes Sociais, este que sempre será todos os dias em que se levanta a voz na defesa daqueles que têm os seus direitos cotidianamente negados.

Dia 15 de maio, dia do Assistente Social.


Maria da Graça Maurer Gomes Türck

II Jornada Acadêmica

Ocorre nos dias 12 e 13 de maio a II Jornada Acadêmica de Serviço Social da Ulbra Gravataí/RS. Como tema, Redes Sociais.

A Professora e Assistente Social Maria da Graça Türck estará abrindo o evento em palestra sob o tema Rede Interna e Rede Social: Estratégias Metodológicas na Garantia de Direitos. A abertura se dará no primeiro dia, a partir das 20h na unidade de Gravataí.

sexta-feira, 5 de maio de 2006

Curso no Maranhão

A Assistente Social Maria da Graça Türck estará participando no período de 15 a 17/05/06, no CRESS 2ª Região, do 27º Encontro de Assistentes Sociais do Maranhão com o tema: “Mudanças no Mundo do Trabalho e Serviço Social: condições e tendências do exercício profissional no Maranhão”. Este encontro já faz parte da agenda dos assistentes sociais e estudantes de Serviço Social deste Estado, tanto pelo seu significado histórico, como pelo seu caráter ético–político–pedagógico.

Maria da Graça estará ministrando um dos 6 mini-cursos que serão realizados no evento. Sua temática será "Serviço Social no Campo Sócio-Jurídico: estudo social em pericias, laudos e pareceres técnicos".

Para conhecimento do encontro, clique aqui para baixar a programação.

colaborou CRESS 2ª Região